domingo, 13 de novembro de 2016

II - Nós temos tanto medo de estarmos sozinhos

As pessoas creem em Deus porque tem medo de estar sozinhas. Quando você nasce e vem parar nesse mundo repleto de sistemas e burocracias e metas que devem ser cumpridas antes dos trinta caso você não queira ser um total fracasso para seus pais, Deus é um amigo apresentado com a promessa de estar sempre contigo, como seu fiel e único verdadeiro amigo. Nós tememos nos afastar dele. Mesmo quando não somos tão religiosos, não vamos a missa todos os domingos ou quando não louvamos nossos deuses pagãos, nós temos medo de deixá-los por completo porque deixá-los significa encarar que estamos sozinhos no mundo e estar sozinho é assustador. 
Sofi disse eu tenho medo de atravessar a porta, tenho medo do que posso encontrar do outro lado, mas eu já atravessei a porta. Quando eu nasci me apresentaram a esse amigo perfeito que devia estar ao meu lado em todos os momentos, e eu não questionei muito de sua existência até contar dezessete invernos e perceber que algumas coisas não eram exatamente como haviam me contado. No momento em que descobri que meu átomos um dia estiveram exatamente no mesmo local que os átomos de Mozart e que isso não era um conto escrito em um livro religioso, mas uma evidência cientifica concreta, ou no momento em que Carl Sagan me disse que eu era feita de poeira estrelar, tudo mudou. Esses momentos ficaram registrados na minha memória e esses momentos me deram coragem para atravessar a porta.
Porque isso é tão difícil, caminhar até a porta assustadora e escancará-la, abrir a porta significa encontrar-me sozinha em um mundo escuro, e estar sozinha me assusta mais do que eu poderia imaginar. O mundo depois da porta é enorme e belo, decorado com livros cheios do conhecimento que estou ávida por consumir, mas o mundo antiga atrás da porta era reconfortante, não me fazia questionar todos os dias meu destino nesse planeta. O mundo atrás da porta é mais fácil, nos dá a estabilidade que algumas pessoas realmente não podem viver sem. Mas o mundo além disso, ah, é tão bonito que eu espero realmente que seja real.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

I - O lago de memórias

Luna perdeu-se em um lago de um planeta distante. Um lago escuro e perolado que congelava seus ossos. A água fria era bela, mas perigosa. Luna sentia que podia afundar a qualquer instante, mas, por qualquer que fosse a razão, permanecia de pé. Ali, no meio do lago. Havia muita água para todo o lado, muita água dentro de si mesma. Luna estava encharcada devido as frias ondas que lhe atingiam a todo instante. Mas o lago, mesmo frio, era bom. Ela sentia como se o líquido escuro penetrasse em sua pele e proferisse palavras. "Sinta a sua mente", parecia quase utópico.
Luna perdeu-se nas águas daquele minúsculo e distante planeta. Sentiu as ondas tocando sua pele desnuda e respirou o ar frio. Viu as memórias invadindo-lhe a mente e as sentiu com o tato, e tremeu com a frieza do que guardava aquele passado que já lhe parecia tão distante. Luna chorou lágrimas congeladas em meio ao enorme lago e mergulhou. Mergulhar era uma das coisas que ela fazia bem na vida. Mergulhar em lagos, mergulhar em pessoas. Mas alguns lagos eram rasos, algumas pessoas tambem. 
Luna precisava evitar traumatismos cranianos, por isso foi com calma.
Estava aprendendo a se preservar.